Perguntas e respostas

Data: 30/10/12 – 16:18

Pergunta de Mara:

Olá! Faço uso do de 1/4 de 3mg de bromazepan para dormir, tenho 38 anos e estou tomando ansiolitico a 3 anos, pois não durmo se não tomar, desde criança era muito nervosa, sofri de insonia a vida inteira, gostaria de parar, pelo medo de ter uma ammenésia irreversivel, mas sempre que tento não tenho coragem para dirigir, fico tremendo para tudo e não durmo, já tentei, fluoxitina, paroxitina, amipitrilina, mas dai não como nem durmo, com amipitrilina durmo dia e noite, por favor existe tratamento para insonia que não faça mal? Os fitoterapicos tabém não me fazem dormir, se eu tomar bromazepan a vida inteira o que vai me acontecer?

Entre as drogas classificadas como ansiolíticos, sedativos e hipnóticos, estão os benzodiazepínicos. O bromazepan é um benzodiazepínico, e assim como outras substâncias desta categoria, é objeto de grande polêmica. Muitos estudiosos criticam o abuso da prescrição destes medicamentos sem a devida observância dos riscos implícitos nesta prática.

Os benzodiazepínicos podem causar dependência física e psicológica. Entretanto, muitos indivíduos que usam estas drogas de forma crônica e que apresentam sintomas de dependência física conseguem conviver com este padrão de uso sem apresentar grandes problemas, típicos da dependência de outras drogas, como o álcool ou a cocaína. Tais pessoas geralmente seguem o uso conforme prescrito por seu médico e não buscam adquirir a droga de forma ilícita, o que aparentemente resulta em um maior controle do padrão de consumo e em consequências menos prejudiciais da dependência.

Ainda assim, o uso de benzodiazepínicos deve ser feito com cautela e evitado quando possível. Mesmo um padrão de consumo controlado pode causar problemas, como os riscos de sua mistura com o álcool e a citada amnésia. O uso crônico pode levar ao prejuízo persistente da memória, que se apresenta mesmo quando o indivíduo não está sob a influência da substância. Porém, este prejízo não costuma a chegar a um nível que constitua grande problema e pode ser superado com a interrupção do uso da droga.

Você escreveu que ao tentar parar de usar bromazepan apresentou insônia e tremores. É possível que, ao menos em parte, estes sintomas se devam à síndrome de abstinência. Para parar o uso de um benzodiazepínico evitanto isto, a retirada pode ser feita aos poucos e é importante ter a consciência de que os sintomas de abstinência podem durar até algumas semanas após a interrupção da droga (geralmente até duas semanas).

Acredito que seria importante para você um tratamento psicológico para a ansiedade e outros sintomas relacionados que você citou, como o medo de dirigir e a insônia. É possível que isto possibilite a você não depender mais de remédios para conseguir dormir e realizar outras funções.

Data: 12/09/12 – 22:22

Pergunta de Jesse:

Eu quero muito parar de usar crak mas não quero ser internado de novo. Eu queria um tratamento que eu fizesse da minha casa, o que eu faço?

A internação não é a única opção para o tratamento da dependência química. Existem também tratamentos ambulatoriais como os CAPSad e atendimentos psicológicos ambulatoriais, os quais permitem que você frequente o tratamento sem ser internado.

Não sei exatamente o que você quer dizer com “tratamento na sua casa”, se você se refere a algo online ou outra forma de tratamento. O tratamento psicológico online ainda é muito controverso e pouco aplicado, no caso da dependência química não é nada comum um tratamento pela internet e nem há comprovação quanto à eficácia.

Existem também psicólogos que atendem os pacientes em seus domicílios quando necessário, isto acontece por exemplo em alguns casos de agorafobia. Não sei porque você gostaria de ser tratado em casa, mas dependendo do motivo você pode pensar em qual seria a melhor forma de tratamento possível. De qualquer maneira recomendo que procure um psicólogo.

Data: 19/07/12 – 19:26

Pergunta de Luciana:

 Suspeito de que meu filho esteja usando cocaína. O que devo fazer?

 Acredito que o primeiro passo é conversar com ele expondo sua preocupação. Fale sobre como você está se sentindo com o que está acontecendo e exponha os motivos pelos quais você se preocupa. Você pode mostrar que se dispõe a apoiá-lo caso ele precise de ajuda, mas não para que ele continue em um comportamento destrutivo, se for realmente o que está acontecendo.

Ao conversar com ele não aja de forma agressiva, julgando-o, acusando-o ou criticando-o, isto pode afastá-lo e fazer com que ele minta sobre a droga. Pergunte de forma clara e direta o que quer saber e dê espaço para que ele se abra.

Se ele estiver usando cocaína você pode oferecer apoio, propor que ele inicie um tratamento dependendo do caso, e estabelecer regras para inibir o comportamento de usar drogas. É importante que as regras sejam seguidas e que se estabeleçam consequências que você seja capaz de cumprir para a quebra destas regras. Também podem ser estabelecidas regras que premiem comportamentos desejados.

Data: 21/05/12 – 20:22

Pergunta de Hugo:

“Uma possível relação entre a esquizofrenia e a maconha é a capacidade desta droga de deflagrar uma esquizofrenia em indivíduos com propensão para tal transtorno, pessoas que provavelmente iriam de qualquer forma manifestar a doença em algum momento de suas vidas”. Estive a ler as perguntas e respostas acerca da relação entre a maconha e a esquizofrenia mas fiquei com uma pequna dúvida. Considerando a resposta transcrita acima e as subsequentes em relação a este assunto, quando refere que a doença se iria manifestar de qualquer forma está a querer dizer que esta manifestar-se-ia com ou sem o uso de drogas, correto?

Não é possível afirmar com certeza que a doença iria se manifestar mesmo sem o uso de maconha, mas que provavelmente iria. O que é certo é que a cannabis pode deflagrar esquizofrenia somente em indivíduos vulneráveis a esta patologia.

Como já havia escrito, não há certezas neste assunto. Existem diversas pesquisas que contradizem umas às outras. Citarei duas importantes que chegaram a conclusões diferentes: uma comparou o aumento do uso de cannabis nas últimas décadas na Austrália com a incidência de esquizofrenia no país. A conclusão foi que não pôde ser estabelecida relação entre o consumo de maconha e aumento da incidência de esquizofrenia, portanto aparentemente a droga não causaria o transtorno (Degenhardt [et al.], 2003). Em outro estudo, uma meta-análise que revisou cinco pesquisas sobre o assunto, os autores concluíram que a cannabis aumentava em duas vezes o risco de esquizofrenia (Arseneault [et al.], 2004). Isto significa que de acordo com este estudo aproximadamente 50% das pessoas que se tornaram esquizofrênicas com a maconha iriam se tornar de qualquer forma.

Levando em conta as diversas pesquisas feitas e os questionamentos sobre a validade das conclusões às quais levaram, pode-se afirmar que aquele que desenvolveu a doença consumindo cannabis iria provavelmente desenvolvê-la mesmo sem a droga, mas, pelo conhecimento atual, não se pode afirmar que isto certamente iria ocorrer.

Data: 17/05/12 – 20:56

Pergunta de Márcia:

Por que a via de administração do crack aumenta seu potencial de dependência?

Há uma relação entre a via de administração das drogas e seu potencial de dependência. O potencial de dependência é a probabilidade que certa substância tem para causar adicção. Isto pode ser estimado analisando o número de pessoas que experimentaram uma droga e a quantidade de indivíduos que se tornou dependente dela.

As diferentes vias de administração implicam em diferentes velocidades de absorção pelo corpo. As substâncias que são injetadas ou fumadas chegam mais rápido ao cérebro, surtindo efeitos em menos tempo. Aquelas, como a cocaína, aspiradas pelo nariz, demoram um pouco mais para atingir o sistema nervoso central, e aquelas ingeridas, como o álcool ou comprimidos e pílulas, demoram ainda mais.

Crack é cocaína, a substância psicotrópica é a mesma que a do pó. A principal diferença está na via de administração, que tem como consequência maior potencial de dependência para o crack. Este é fumado, enquanto a cocaína é geralmente aspirada.

Em comparação à cocaína o crack chega mais rápido ao cérebro, atingindo um pico plasmático mais alto (toda a substância atinge o corpo de uma só vez resultando em um efeito mais intenso), e tendo um efeito mais breve (como tudo é absorvido rapidamente também se esgota rapidamente). Tais características implicam em maior potencial de dependência, pois o efeito é mais intenso (portanto mais incentivador à repetição do uso), mais breve (o que faz o usuário logo buscar mais), e o comportamento de fumar é logo seguido pelo efeito (uma característica de qualquer comportamento é que quanto menos tempo conseqüências positivas levam para se seguir a um comportamento, mais este será fortalecido e se tornará  mais provável de se repetir).

Data: 17/05/12 – 20:04

Pergunta de Anónimo:

Não se tem atualmente conhecimento suficiente para determinar se uma pessoa iria ou não desenvolver esquizofrenia e quando… Mas essa pessoa ia ficar com esquizofrenia mesmo que não fumasse maconha? E se sim, provavelmente era na média de idade do surgimento da doença ou podia ser tipo 10 anos depois?

A questão: “uma pessoa que fumava maconha e desenvolveu esquizofrenia iria desenvolver mesmo se não fumasse?” é controversa. O que se sabe é que quem tem a psicose deflagrada pelo uso de maconha já tinha vulnerabilidade para a doença. Não é possível afirmar com certeza que a pessoa iria ou não se tornar esquizofrênica sem o consumo da droga.

Apesar de não haver comprovação indiscutível de que a cannabis cause esquizofrenia, também não há certeza no sentido contrário. Existem estudos nos quais os autores concluem a relação de causalidade entre maconha e esquizofrenia e também existem estudos contestando estes resultados.

Quanto à idade de início da doença, o mais provável é que um indivíduo que desenvolveu esquizofrenia tenha o feito entre os 20 e 30 anos, já que em mais da metade dos esquizofrênicos o transtorno se instala neste período. O início em pacientes do sexo masculino está mais concentrado nesta faixa de idade do que em pacientes do sexo feminino. No entanto, também é possível o surgimento da doença em idades mais avançadas.

Existem estudos, que sugerem que a esquizofrenia pode se instalar mais cedo em usuários de cannabis. Uma destas pesquisas, uma revisão de estudos sobre o assunto (meta-análise), chegou ao resultado de uma média de idade para início da esquizofrenia 2,7 anos mais cedo para consumidores de maconha (Large, 2011). Nada, no entanto, é certo, e estas pesquisas também podem ser questionadas quanto à sua validade.

Data: 16/05/12 – 21:18

Pergunta de Anónimo:

Uma pessoa que teve meningite quando criança (logo sempre teve muitas dificuldades na escola) e que “sempre” consumiu maconha, ficou esquizofrenica aos vinte e poucos anos. Já li nas suas respostas que ela iria manifestar a doença de qualquer forma em algum momento de sua vida, mas como eu fumava com essa pessoa gostaria de saber se a esquizofrenia iria aparecer por essa idade ou se contribuí para lhe estragar muitos anos de vida?

Não é possível responder a essa pergunta de forma direta. Não se tem atualmente, e talvez nunca se tenha, conhecimento suficiente para determinar se uma pessoa iria ou não desenvolver esquizofrenia e quando. Existem estudos que indicam uma média de idade menor para o estabelecimento da esquizofrenia em indivíduos usuários de maconha. Entretanto, alguns desses estudos não verificaram se o uso de maconha precedia o primeiro surto psicótico, o que significa que os resultados podem ser devidos a uma maior busca por maconha por indivíduos já esquizofrênicos. Outra questão a respeito da validade das pesquisas mencionadas é a possibilidade da existência de fatores anteriores comuns ao desenvolvimento da esquizofrenia e à procura pela droga (por exemplo, sintomas discretos da doença, anteriores ao primeiro surto, que por algum motivo poderiam levar ao consumo de maconha).

De toda forma, sabe-se que há uma relação entre meningite e desenvolvimento de esquizofrenia. É possível, portanto, que a doença da infância tenha contribuído para o surgimento do transtorno psicótico. Outro fato conhecido é que a idade de estabelecimento da esquizofrenia é para a maioria dos pacientes entre os 20 e 30 anos de idade (o que condiz com a pessoa em questão), sendo que as mulheres costumam desenvolver a doença alguns anos mais tarde que os homens. Para elas a média de idade do aparecimento do transtorno é em torno dos 28 anos, enquanto para os homens é em torno dos 25 anos.

Data: 18/04/12 – 18:04

Pergunta de Anônimo:

Quem se acostuma a uma droga mais leve fatalmente vai para uma mais pesada com o tempo?

Não. Para responder melhor, gostaria de primeiramente determinar que drogas estamos discutindo. Quando se debate esta questão é comum se referir ao álcool, tabaco e maconha como possíveis “portas de entrada” para outras drogas. Irei  me referir a estas três substâncias como “leves ou legais”, já que não são todas as três substâncias “leves”.

Pesquisas indicam que muitos dos usuários de substâncias “pesadas ilegais” como o crack, começaram usando maconha, álcool ou tabaco, e que um usuário destas drogas tem mais chance de utilizar substâncias ilícitas de alta nocividade. No entanto, isto não é uma prova de que a maconha, álcool ou tabaco levem ao uso de outros psicotrópicos percebidos como mais nocivos, mas sim a constatação de que dificilmente um indivíduo vai direto à experimentação de drogas “pesadas ilegais”.

É importante para a elucidação desta pergunta considerar a constatação de que a maioria dos usuários de álcool, tabaco ou maconha não usa drogas “pesadas ilegais”. Aparentemente não há uma propriedade intrínseca das drogas “leves ou legais” que leve ao uso de outras drogas ilegais de alta nocividade.

Data: 17/04/12 – 19:11

Pergunta de Anônimo:

E a esquizofrenia, esta ligada à cocaína?

Se a sua pergunta é em referência à questão do dia 06/04/12: “a maconha pode causar esquizofrenia?”, e você quer saber também se a cocaína pode causar esquizofrenia; a resposta é: aparentemente não.

O que a cocaína pode causar são sintomas psicóticos que duram pelo período da intoxicação. O surgimento destes sintomas sob o efeito de droga é bastante comum no caso da cocaína, especialmente na forma conhecida como crack. Usuários de crack frequentemente relatam experimentar paranoia intensa ao consumir a substância.

Se a sua pergunta se refere às possíveis relações entre esquizofrenia e cocaína de uma forma mais geral, há outro dado a ser considerado.  O uso e dependência de substâncias entre pacientes esquizofrênicos é consideravelmente maior do que na população em geral. A droga cujo uso é mais aumentado entre esquizofrênicos é o tabaco, além dele também é aumentado o uso de cocaína, maconha e álcool. Apesar de haverem algumas hipóteses, as razões para um maior uso de drogas entre estes pacientes ainda não são bem compreendidas.

Data: 07/04/12 – 21:41

Pergunta de Juliano:

Eu bebo todo fim-de-semana, mas durante a semana não. Quando bebo é bastante. Posso ser considerado dependente?

Talvez sim, talvez não. Não é possível saber somente com estas informações. O importante é considerar se a bebida está causando sofrimento a você ou a outros, ou colocando você ou outros em risco. Se, por exemplo, na segunda feira você chega atrasado ao trabalho ou falta porque bebeu muito no fim-de-semana e isto está causando problemas, ou se você dirige depois de beber, talvez seja o momento mudar seus hábitos de consumo de álcool.

Caso esteja preocupado com seu comportamento em relação à bebida procure um especialista. Para mais detalhes a respeito do que é considerado dependência veja a seção “Critérios diagnóstico para abuso e dependência de substância”, mas lembre que não é preciso ser dependente para necessitar de auxílio em relação a consumo de drogas. Muitas pessoas buscam ajuda mesmo sem preencher os critérios para dependência química, pois por algum motivo sentem que devem mudar seus hábitos de uso de droga.

Data:  06/04/12 – 18:30

Pergunta de Anônimo:

A maconha pode causar esquizofrenia?

Apesar de esta questão ser estudada há décadas, não há comprovação de que a maconha possa causar esquizofrenia.

A esquizofrenia é uma forma de psicose crônica que perdura por toda a vida. A maconha parece não poder causá-la, mas ,assim como diversas outras drogas, pode induzir durante a intoxicação sintomas psicóticos que cessam depois de passados os efeitos da substância.

Uma possível relação entre a esquizofrenia e a maconha é a capacidade desta droga de deflagrar uma esquizofrenia em indivíduos com propensão para tal transtorno, pessoas que provavelmente iriam de qualquer forma manifestar a doença em algum momento de suas vidas.